Documentário da TV O VALE mostra o papel do Exército Brasileiro na Amazônia. Nossa equipe percorreu mais de 5.000 km até os Estados do Amazonas e Roraima.
O “doc”, feito em novembro de 2011, foi dividido em seis capítulos para ser exibido na TV O VALE (www.ovale.com.br). Nele, relatamos a experiência de militares que servem no Bavex, Cecma, Batalhão de Engenharia de Construção; além de uma entrevista com o Gal. Villas Bôas, comandante do Comando Militar da Amazônia, que ressalta quais são as dificuldades de se operar na Amazônia.
Novo fuzil é reforço na fronteira
Mais leve e potente, novo armamento já é testado pelos militares; objetivo é facilitar operações e melhorar a vigilância
Militares do Exército Brasileiro testam nos Pelotões Especiais de Fronteira da Amazônia o novo fuzil fabricado pela Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil), que tem unidade em Piquete.
Batizado de IA2, o fuzil de calibre 5,56 mm irá equipar as Forças Armadas e as forças de segurança pública.
A intenção é substituir os fuzis FAL (Fuzil Automático Leve) de 7,62 mm, também fabricados pela Imbel, usados pelos militares há 30 anos. O VALE conheceu o novo armamento no Pelotão Especial de Fronteira de Normandia, em Roraima.
Melhor. Segundo o sargento Eriberto Teixeira da Silva, 38 anos, a arma pesa metade do FAL, tem maior capacidade de tiro e carrega mais munição, além de tornar mais difícil qualquer tipo de incidente.
“A arma tem várias características que auxiliam o combatente. A utilização dela é melhor para o ambiente hostil da selva na comparação com o FAL”, disse o militar.
Enquanto o FAL leva 20 munições no carregador, o IA2 é capaz de guardar 30 balas, menores que aquelas usadas no fuzil mais antigo. A nova munição tem sido utilizada pelas principais Forças Armadas.
Custos. A fabricação do novo fuzil será feita na unidade da Imbel em Itajubá (MG), com capacidade para produzir 20 mil armas por ano.
Os custos de fabricação, manutenção e treinamento são reduzidos em razão de a maioria das peças ser similar às do fuzil FAL.
“A arma é bem adequada para operações de tropas especiais”, afirmou o sargento Fagner Henrique de Morais, 22 anos, do PEF de Normandia.
Desenvolvimento. Segundo Haroldo Leite Ribeiro, diretor de Mercado da Imbel, e Paulo Roberto Costa, chefe da Fábrica de Itajubá, o IA2 é um aprimoramento do fuzil MD97 por causa das novas necessidades operacionais das forças de defesa e de segurança.
A nova arma foi apresentada oficialmente na LAAD (Feira Latino-Americana de Defesa e Segurança), no Rio de Janeiro, em abril deste ano.
Antes de ser entregue para testes pelo Exército Brasileiro, disseram os executivos da Imbel, o fuzil foi testado na fábrica de Itajubá.
“Os protótipos dos fuzis foram entregues ao Exército em junho e já concluíram a avaliação técnica, estando em fase final da avaliação operacional, a qual acontece nos diversos ambientes operacionais do país, inclusive na selva”, afirmou Costa.
O armamento precisa de autorização do Exército para ser fabricado e comercializado. “Tão logo haja a certificação do fuzil, a Imbel iniciará a sua produção”, disse Ribeiro.
Segundo os executivos, o fuzil IA2 foi concebido para utilização em locais onde exige-se precisão nos tiros em curta e média distâncias, como na selva e nas zonas urbanas, facilidade na portabilidade e menor peso. “Essas são as características mais importantes do armamento”, completou Costa.
O sargento Fagner Henrique de Morais (esq.) segura o velho FAL, enquanto o sargento Eriberto Teixeira da Silva empunha o novíssimo IA2, ainda em fase de testes na selva
Detalhe da munição 7.62 mm do FAL (esq.) e a 5.56 mm do IA2
Enquanto isso, na selva… Os militares ainda usam o velho FAL!!
Equipamentos na selva: veja o que os militares usam quando precisam fazer missões na selva
Tenente Hélio Viana Santos Sobrinho, instrutor do Cigs, mostra itens usados pelos combatentes
Temos um lema: a selva é um shopping center, e o nosso facão é o cartão de crédito. Obtemos muitas coisas da selva. Nas operações militares, a dificuldade logística é muito grande e a comida pode atrasar ou muitas vezes deixar de vir. Há necessidade de quem está operando na selva de saber obter alimentos da própria região. Há muita variedade. No período de chuva a diversidade é muito grande. É quase impossível conhecer as 300 mil espécies catalogadas no mundo todo. Há algumas características que identificam se o fruto é comestível ou não. Entre elas, o CAL (cabeludo, amargo ou leitoso) eu evito consumi-lo. Cabeluda tipo kiwi, leitosa como mamão. Mas toda regra tem exceção. O mamão é leitoso, mas conheço a fruta e eu posso comê-la. Mas se estou numa operação e necessito obter meios para a minha sobrevivência, se identificar CAL, evito de consumi-lo. Se ficar na dúvida, fervo duas e três vezes que irá acabar eliminando tóxicos. Se não tiver fogo ou água, corto pedaços da fruta e coloco na boca para sentir o paladar. Se, com o tempo, em 10 a 15 minutos, irritar a boca, evito o consumo. Se o animal come, a chance de o ser humano poder comer é grande. Muitas vezes andamos na selva e encontramos frutos com mordidas de animais. Se houver mordedura de mamífero, esse fruto poderá ser consumido, mas lembrando que os animais têm enzimas no estômago que os humanos não têm.
Liquidificador de selva: graveto tirado de tronco de árvore que é moldurado pelo facão. Coloco dentro da vasilha e giro para que vá batendo. Os galhos servem de pás do liquidificador. Coloco no caneco para misturar a ração, líquidos, etc.
Guerreiro de selva é treinado para levar menos equipamento possível e usar o máximo da selva. As operações na selva são caracterizadas pela descentralização das ações. O combate em terreno convencional há grandes companhias e batalhões centralizados. Na selva, usamos pequenas equipes. Andar na selva faz barulho e, por isso, colocamos poucas equipes para manter o sigilo. O princípio de guerra é ver sem ser visto. Teremos várias frentes para suprir a tropa. Quando há problema no suprimento, temos que saber sobreviver na selva. Tudo é ensinado na fase do curso.
O guerreiro de selva precisa ter iniciativa, porque o comando pode perder o contato com a equipe que foi escalada. Atributos da área afetiva é a iniciativa, coragem, perseverança, persistência. Imagine andar vários dias na selva, com calor e umidade, e uma mochila de até 30 quilos. Um fuzileiro leva 200 cartuchos de 762, com o fuzil, que pesa quatro quilos, mesmo peso da rede de selva. Levamos dois cantis no cinto, mas posso levar água na mochila. Cada um compõe o seu equipamento.
Levamos materiais de sobrevivência, primeiros socorros, manutenção do armamento, higiene, munição. Com o passar do tempo, molhado e cansaço vai pesando mais. O curso é tentar transformar no mais real possível. Fazemos o estresse psicológico, que é maior do que o físico. A selva já é estressante com as longas distâncias, cansaço, ambiente fechado, pouca visibilidade, sono e fome. Colocamos o aluno para dormir só na selva para despertar a coragem e inibir o medo. Temos que aprender a conter o medo dentro da gente. É comum o ser humano começar a imaginar coisas quando está com medo.
Houve uma operação de combate a garimpo ilegal que a aeronave não pode nos suprir e tivemos que pernoitar dois dias na selva até ser resgatados. Lançamos a equipe de pesca e conseguimos alimento para até duas semanas.
Pior coisa do curso é a restrição do sono. Dormimos em rede e não há conforto nenhum. Tinha que dormir molhado e o desconforto incomodava muito. Muitas operações o pé enrugava com a umidade e começava a dar bolhas. Parava, tinha que secar o pé e a meia. Combatente com pé ferido não consegue andar. Dormimos em rede elevadas para fugir dos predadores. O fuzil fica do nosso lado e dormimos no solo também, em situações de combate, para que a defesa possa ser rápida. A noite, a selva não é nada silenciosa. Tem que se acostumar com os barulhos dos insetos, macacos. Já vi rastro, pegada e garras da onça nas árvores. Aprendemos a identificar os sons e rastrear animais, identificando pegadas e trilhas de animais e possíveis sons.
“A guerra na selva é outra para o batalhão”
Tenente coronel José Mateus Ribeiro, comandante do 6º BEC (Batalhão de Engenharia de Construção), em Boa Vista (RR), inspeciona obras na ponte do município de Castanho (AM), na BR 319
Qual o trabalho do 6° BEC na Amazônia?
Nossa guerra na selva é outra. Lutamos pelo desenvolvimento da Amazônia reformando e construindo estradas, pontes, portos e aeroportos, em diversos contratos com o governo, seja municipal, estadual e federal. Na Amazônia, mais de 90% das estradas foram feitas pelo Exército. Costumo dizer que a estrada é um dos caminhos mais democráticos. Ela permite que as pessoas mais pobres circulem por ela sem nenhum problema. Já de barco ou avião eles têm que pagar.
Como é fazer obras na Amazônia? Há limitações?
Sim, temos que nos adaptar à realidade da selva. A engenharia faz obras na estrada durante cinco meses. O trabalho é limitado pelo regime de chuvas da Amazônia, que dura sete meses, período chamado de inverno amazônico. Nesse período, o trabalho fica restrito à manutenção, planejamento e mobilização para o trabalho efetivo de cinco a seis meses de estiagem, do verão amazônico, quando efetivamente trabalhamos na estrada.
E como superar os problemas de logística?
A logística na Amazônia é complicada. Os fornecedores estão localizados no Sul e Sudeste do país. Para muitas peças que precisamos a reposição não é imediata. O principal centro de recebimento é Manaus e, muitas vezes, precisamos esperar muito tempo.
O lema da engenharia é: “O suor poupa o sangue”?
Exato. E é por isso que digo que a nossa guerra é outra. É pelo desenvolvimento da região.
Quais obras o 6° BEC está tocando no momento?
Estamos recuperando a BR 319, que liga Manaus a Porto Velho. Ela é vital para o país, porque liga a última região que não tem uma ligação rodoviária. Possibilitará ampliar a rede de estrutura para total integração do nosso país. O Exército está substituindo 60 pontes na rodovia. Em Castanho, por exemplo, a ponte vai permitir que as pessoas atravessem o rio em 30 segundos, sem pagar nada. Antes, elas tinham que pegar a balsa, que demorava uma hora e meia e não funcionava de noite.
Engenharia garante obras para o progresso da Amazônia
Mais de 2.000 militares em quatro batalhões abrem estradas e fazem pontes onde nenhuma construtora deseja trabalhar
O desenvolvimento da região amazônica conta com uma ‘arma’ indispensável: os batalhões de engenharia do Exército Brasileiro. Para se ter uma ideia, mais de 90% das estradas construídas na Amazônia foram feitas por militares do Exército.
Isso porque pouquíssimas construtoras se aventuram a enfrentar os desafios da selva para abrir estradas ou construir pontes.
As dificuldades começam com a questão logística, de levar máquinas pesadas aos confins da região Norte, e passam pela falta de peças de reposição, temporada de chuvas e a exigência de manutenção constante dos equipamentos –o calor e a umidade excessivos danificam as máquinas.
Tudo isso é enfrentado rotineiramente pelos cerca de 2.000 militares do Exército que trabalham em quatro batalhões e uma companhia de engenharia de construção do Exército na Amazônia.
BR 319. Para conhecer o trabalho de desenvolvimento da região Norte, a equipe do jornal O VALE viajou quase 400 quilômetros entre Manaus e o município de Castanho (AM), através de estradas e pelos rios Negro e Solimões, para ver de perto as obras na BR 319.
Trata-se de uma rodovia de 860 quilômetros inaugurada em 1973, que liga a capital do Amazonas com a capital de Rondônia, Porto Velho.
O Exército é responsável por recuperar um trecho de 268 km da estrada, que ficou abandonada por mais de uma década. Os militares também estão reconstruindo 60 pontes de madeira ao longo da rodovia, erguendo pontes de concreto. As obras seguem em ritmo acelerado.
“A engenharia faz obras na estrada durante cinco meses no ano. O trabalho é limitado pelo regime de chuvas da Amazônia, que dura sete meses”, explicou o major Luis Cláudio Brion, 39 anos, analista de obras do 6° BEC (Batalhão de Engenharia de Construção).
Sediado em Boa Vista, Roraima, o batalhão finalizou na semana passada uma ponte na BR 319, além dos acessos e da recuperação da vegetação ao redor da construção.
Guerra ambiental. Para o comandante do 6° BEC, tenente coronel José Mateus Teixeira Ribeiro, ex-oficial de comunicações do Exército em Caçapava, os batalhões de engenharia também têm a responsabilidade de preservar o meio ambiente, além de colaborar com o desenvolvimento.
“Fechamos o ciclo. O Exército combate os crimes ambientais na selva e nós, da engenharia, trabalhamos pela recuperação ambiental”, disse.
Nesse contexto, o 6° BEC se destaca com projetos ambientais inovadores. A sede do batalhão abriu em agosto deste ano o primeiro horto de Roraima, que possui apenas 15 cidades e 450 mil habitantes. Já foram doadas 4.800 mudas de árvores.
Obras. Atualmente, o Exército tem contratado aproximadamente R$ 400 milhões em obras na Amazônia, que vão desde a construção e recuperação de estradas, pontes, portos e aeroportos, além de unidades do próprio Exército.
Para se ter uma ideia das dificuldades que a engenharia enfrenta, o calor e umidades excessivos da região Norte obrigam os contratos a levar em conta o que o Exército chama de ‘fator amazônico’, que acaba encarecendo os custos de uma obra.
O desgaste de peças e maquinário, a exigência de manutenção constante e a utilização de materiais com durabilidade reforçada estão na lista dos itens que tornam mais caras as obras na Amazônia.
“O resultado é que poucas empreiteiras aceitam vir trabalhar na região. Quem acaba aceitando os serviços é o Exército, que tem estrutura e conhecimento da realidade amazônica”, afirmou Ribeiro.
Orgulho. É possível identificar entre os militares da engenharia a satisfação pelo trabalho executado nos rincões do país. Poucas pessoas sabem o que eles estão fazendo. Mesmo assim, eles se dizem felizes com a missão. “Representamos bem a mão amiga do slogan do Exército”, disse o tenente coronel.
Exército cria horto florestal em Roraima
O único horto de Roraima está construído dentro do quartel do 6° BEC (Batalhão de Engenharia de Construção), em Boa Vista. Inaugurado em agosto, o viveiro de mudas tem capacidade para produzir 10 mil mudas de árvores nativas.
Desde que foi aberto, o horto já doou 4.800 mudas para escolas e entidades da capital. A meta é ampliar a doação. Para tanto, o batalhão estuda dobrar a área de viveiro, que tem 360 metros quadrados.
Quem cuida das plantas é a sargento Rúbia Cristine Modesto, 37 anos, engenheira agrônoma que fez do horto um laboratório de árvores nativas.
Ela conta com a colaboração de uma técnica agrícola e de um engenheiro florestal, todos militares. Eles seguem à risca a recomendação do tenente coronel José Mateus Teixeira Ribeiro, comandante do 6° BEC: “A proteção ambiental é uma guerra para preservar o patrimônio do país”.
Castanha. Entre as espécies cultivadas no horto, estão tipos nativos como pequi, castanha, tatajuba e açaí. Algumas das plantas correm risco de extinção, como a castanha.
“Conseguimos acelerar a produção da castanha da Amazônia de três anos para quatro meses. A semente já começou a nascer e isso foi surpreendente”, contou Rúbia. Não à toa, o horto foi batizado com o nome indígena de Komani, que significa ‘arvore do viver’.
Combatente tem que aprender a lidar com a água
Tenente coronel Heber Costa, 43 anos, subcomandante do Cigs (Centro de Instrução de Guerra na Selva)
Qual é o papel da Base nº 4 do Cigs?
Aqui o aluno aprende a usar as embarcações, a se orientar dentro de um rio usando cartas e bússola, técnicas com helicópteros nas ações pluviais. Essa base é uma das mais bem estruturadas. Temos anfiteatro, alojamentos, rancho, oferece as condições mínimas para, no máximo, 150 alunos, temos estrutura de enfermaria, pelotão de comunicações. Quando o aluno vem para cá, ficamos em torno de 10 dias.
Qual a etapa do curso feita nesata base?
O curso de guerra na selva possui três fases, com 9 semanas. A primeira é de 2 semanas de vida na selva. Uma fase técnica de 2 semanas e uma fase de operações, de 5 semanas. A base 4 é usada durante uma semana da fase técnica, no que chamamos de semana da água, e na fase de operações também é utilizada por 10 a 15 dias.
Como é viver quase sempre molhado aqui na selva?
Desde a preparação para o curso, o aluno tem que ter em mente de que o domínio da água é uma das atividades mais importantes. Já na sua unidade de origem ele começa os seus treinamentos, na piscina e em alguns rios. Realizados testes de flutuação durante 15 minutos em uma piscina, com todo o equipamento. Quem passa já demonstra um bom domínio na água. Durante o curso nós aprimoramos essa técnica.
Quais habilidades eles desenvolvem?
Na fase da água, aprende a operar embarcações, a construir jangadas, a construir meios de fortuna com que possa utilizar para ultrapassar rios, lagos e igarapés. A parte técnica é importante porque ele a usará na fase de operações.
Severino, seringueiro
Aos 60 anos de idade, o seringueiro Severino Moreira dos Santos mostra vitalidade de menino para continuar subindo nas árvores para colher a borracha. Ele conseguiu sobreviver a vida toda trabalhando com a extração do látex, ganhando comida em troca de trabalho. Agora, depois de ter herdado de “uns japoneses”, como ele mesmo conta, um flutuante (casa sobre os rios) na beira do lago Puraquequara, perto do rio Amazonas, ele só refaz o trabalho no seringal para mostrar para os turistas.
“Para extrair a borracha, eu uso a poronga, que é essa espécie de lanterna que vai na cabeça. Ela ajuda porque a gente saía para o seringal ainda de madrugada, no escuro”, diz ele.
Com os pés descalços, ele vai andando pela mata como quem está na sala de casa. Conhece cada canto da floresta, seus segredos e perigos. “Já vi onça cercando o seringal. Tem que ficar esperto”, lembra.
Para tirar o látex, ele sobe num tronco que serve de escada e chega ao ponto da árvore em que estão feitos os cortes, espécies de pequenas canaletas, através dos quais a seiva (o “leite” da árvore, como ele chama) vai escorrendo e enchendo uma pequena latinha. A árvore da qual ele extrai a borracha fica depois um ano para se recompor e começar a produzir novamente. “Na época que eu era mais moço, tirava 20 litros de borracha por dia. Era um trabalho muito duro”.

A seiva extraída da árvore é levada para uma fogueira, que Severino usa para esquentar a seiva até começar a virar látex, que ele usa para fazer bolas e outras peças de borracha.
Pelotões Especiais de Fronteira
As unidades militares instalados nos lugares mais inóspitos do território brasileiro, nos quais a adversidade é parte do cotidiano, são os Pelotões Especiais de Fronteira.
O CMA (Comando Militar da Amazônia) tem 27 pelotões de fronteira implantados ao longo da divisa com sete países, entre eles três produtores de cocaína (Colômbia, Peru e Bolívia), nações com vazios institucionais (Guianas) e atuação de guerrilhas (Venezuela).
Tudo isso obriga o Exército Brasileiro a manter uma vigilância constante na faixa de fronteira, embora a condição esteja longe do ideal.
Com 11 mil quilômetros de extensão, a fronteira na Amazônia é um desafio logístico. A maior parte do território é coberto por selva. O próprio comandante do CMA, general de Exército Eduardo Villas Bôas, admite o problema: “Existem mais de 1.000 quilômetros na Amazônia sem a presença de ninguém, nem das Forças Armadas, o que é muito perigoso”.
Os 27 pelotões de fronteira do CMA estão distribuídos por 6 Estados: Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá. O maior número está concentrado no Amazonas, Roraima e Acre, com 23 pelotões, em razão dos problemas na faixa de fronteira.
O general de brigada Franklimberg Ribeiro de Freitas, comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, é recebido pelos militares do Pelotão Especial de Fronteira de Bonfim, em Roraima
O coronel Marcos Araripe Souza Oliveira mostra para o general Franklimberg (de pé) as operações que estão em andamento perto da fronteira com a Guiana (ex-Inglesa).
“Estamos com a tropa do 1º Batalhão de Infantaria de Selva, de Manaus, em operação na fronteira para combater os ilícitos, na região de Bonfim e Normandia, principalmente contrabando, tráfico de maconha e roubo de moto. O pessoal rouba motos em Bonfim, passa pela fronteira, troca por maconha e volta para vender em Manaus. Estamos atuando com duas tropas”, disse Oliveira.
“É uma satisfação trabalhar nessas operações pela dificuldade que elas nos apresentam. O Exército vem para cá e faz atendimento médico e odontológico nas comunidades, para reforçar a presença do Estado”, completou.
Tenente Enderson Passos, 26 anos, subcomandante do 1º PEF, em Bonfim: “É gratificante para mim trabalhar no PEF. Já passei por outros pelotões de fronteira, como em Pacaraima, Auaris e Uiramutã, e agora estou aqui em Bonfim. Estou na função de comandante porque o meu comandante está em missão. A importância é de trabalhar pela garantia da soberania nacional. Eu atuo desde os 22 anos em Pelotões Especiais de Fronteira. Não faltam histórias. Já passei sete meses sem ver uma cidade, por causa das grandes distâncias. Combater os crimes é fundamental para o país. Trabalhamos em parceria com os órgãos federais.”
O soldado Wilson André Laurindo, 20 anos, está servindo o Exército pelo primeiro ano no 6º Pelotão Especial de Fronteira, em Uiramutã, na região Nordeste de Roraima, dentro da área da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Ele é descendente de índios da etnia macuxi, da comunidade Água Fria, distante 50 km do PEFi. “Ser índio e servir ao Exército facilita no contato com os outros índios, que têm menos desconfiança com a gente do que com os brancos.”
O soldado Marcelo Antonio Rodrigues, 20 anos, também é descendente de índios. A mãe dele é índia da etnia macuxi e o pai é da Guiana. Ele ainda fala um pouco da língua materna. “Vim servir no Exército Brasileiro para defender a fronteira”.
A técnica agrícola e sargento Alcilene Cordeiro Silva Loureiro, 33 anos, que tem ascendência indígena. “Minha mãe é da tribo indígena dos Tucanos, de uma cidade chamada Santa Isabel do Rio Negro, no interior do Amazonas. Eu nasci no Pará e vim para o Amazonas. Me caseis aos 26 anos e entreguei para o Exército com 30, depois de formada na escola técnica federal. Sirvo no 6º BEC e minha função é recuperar áreas degradadas. Meu pai era comandante de barco e se apaixonou pela minha mãe, que era índia. Eles foram para uma pequena cidade povoada por descendentes italianos. Com 6 anos, fui dada para uma prima para criar”.
Por que decidiu entra no Exército?
Para me desenvolver como pessoa. Foi um desafio. Eu morria de medo de tudo e o Exército me ensinou muita coisa, como a me desenvolver melhor, saber me expressar, não tem nem explicação. Foi muito bom como pessoa. Me ensinou a fazer projetos e vejo o coronel Mateus (comandante do 6º BEC) como quase um pai (nesse ponto da entrevista, ela se emocionada e chora).
Você se vê como uma referência para outros descendentes de índios?
É um incentivo para os índios que querem entrar no Exército. É um desafio de vida, para aprender muita coisa. E vamos além da nossa vida. Quando sairmos das Forças Armadas, estaremos preparados para o mercado de trabalho, em várias áreas que possamos atuar. O índio tem conhecimento da selva e pode contribuir para o Exército. Índio sabe como lidar com a terra, com as plantas nativas. Trabalho com espécies nativas, de árvores e plantas, e com capins para a recuperação de taludes.
Aldeia indígena perto de um Pelotão Especial de Fronteira do Exército na Amazônia. De tão longe, só se chega ao local de helicóptero
General de Brigada Franklimberg Ribeiro de Freitas
General de Brigada Franklimberg Ribeiro de Freitas, comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva
Estamos em Uiramutã e temos o 6º Pelotão Especial de Fronteira e é a presença do Estado. Foi construído dentro da atual reserva indígena Raposa Serra do Sol. A área só foi homologada em 2008. A população do município de Uiramutã tem crescido muito. Vemos a construção de uma escola e da ampliação de um ginásio. A demanda por ensino está crescendo. A cidade também tem três antenas de telefonia instalada.
Planejamento e reconhecimento do Curare 5.
Estamos realizando durante todo o ano, com apoio dos PEFs, do levantamento dos ilícitos na fronteira, compilados com dados da Polícia Federal, da Funai, do Ibama, do IcmBio e da Polícia Rodoviária Federal. Os dados de inteligência são reunidos e fazemos o desencadeamento da operação para combater os ilícitos na fronteira.
A importância de combater o garimpo ilegal em terra indígena?
O garimpo é ilegal. Particularmente, o acesso á reserva Yanomami é muito difícil e poucas instituições têm meios de chegar ao local. No CMA, o 4 Bavex permitem realizar esse tipo de ação. Como é uma atividade não permitida por lei, nos reunimos com a PF e Funai para realizar essas operações de interdição de diversos garimpos que foram levantados com a inteligência do Exército. Temos em torno de 800 homens envolvidos nessas operações, somandos a delegados da PF e agentes de outros órgãos federais.
Ações táticas?
Temos diversos tipos de ações. Na fronteira com a Venezuela, fazemos a vigilância num posto da receita federal do que entra e sai do país. Há um patrulhamento na estrada em razão do contrabando de combustível. Na área de Bonfim, o 1º BIS está patrulhando nos rios e já encontraram carregamento de camisas e outros materiais. Os produtos são apreendidos e encaminhados para a PF. Na área sul do Estado, onde há crime ambiental, atuamos com o Ibama e o Icmbio. Proporcionamos a parte logística e de segurança para que esses órgãos executem seu trabalho. Na área Yanomami, onde temos a maioria dos garimpos, estamos realizando incurções com apoio da Funai e PF na interdição dos garimpos. Todo material encontrado que puder ser transportado, levamos para a PF. O que não pode ser levado fica interditadio. As pessoas detidas também são encaminhadas à PF. Eles respondem em liberdade pelo ilícito.
O pessoal foge para a selva?
Sabemos que os garimpeiros vão ter dificuldade de deixar o local. Eles fogem porque estão com ouro e não querem entregar à PF.
E os índios?
Eles estão sendo muito importantes para a operação, denunciando os garimpos. Temos oportunidade de observar a quantidade de área degradada pelo mercúrio dos garimpeiros. Os índios reclamam desse trabalho irregular dos garimpeiros. Os índios estão nos apontando os locais onde há garimpos clandestinos. Todos esses garimpos são interditados.
Quem são os militares?
Temos militares dos PEFs e de outras unidades participando das operações, até mesmo gente de Manaus. Depende da necessidade. Os soldados são da região e conhecem bem a área. Os nossos oficiais e sargentos possuem o curso de guerra na selva.
Importância do Exército no combate aos ilícitos?
De acordo com a lei complementar de 2010, permite ao Exército ao poder de polícia em 150 km nos limites de fronteira possamos, junto com outros órgãos de segurança pública, realizar a atividade de combate aos ilícitos. Estamos numa operação Curare 5 com participação da PF, PRF, Ibama, Icmbio, Ibama, Funai, que apoiam o Exército no combate aos crimes na fronteira, em toda a faixa de fronteira do nosso território.
Atendimento médico e odontológico
Em paralelo às operações militares na faixa de fronteira, o Exército leva para os municípios e comunidades isoladas, incluindo as indígenas, médicos e dentistas para atender a população.
Chamado de ação cívico-social, o trabalho acaba sendo a única oportunidade em diversas localidades de receber a visita de um médico, em razão das grandes distâncias e do difícil acesso na Amazônia.
Operações na selva
O Exército Brasileiro faz regularmente operações na Amazônia, em conjunto com outros órgãos federais, como Ibama, Polícia Federal e Funai, para combater crimes na área de fronteira, especialmente narcotráfico, contrabando e desmatamento. Nas reservas indígenas, os militares atuam na localização e interdição de garimpos clandestinos.
As imagens abaixo foram fornecidas pelo Exército e mostram algumas dessas operações que foram realizadas entre outubro e novembro. Percebam os danos ambientais causados pelos garimpeiros e os vários equipamentos apreendidos pelos militares.
Embarque dos militares no helicóptero Black Hawk para cumprir as missões, que contam com agentes da Polícia Federal
Fabiano Martins, 41 anos, delegado da Polícia Federal em Boa Vista
A Operação chama Baixo Rio Branco e o objetivo é coibir atividades ilícitas na região. O Exército veio com mais de 100 homens e nós damos o apoio. Começou dia 31 de outubro, com previsão de término em 9 de novembro. Confirmamos um desmatamento, com auxílio do Ibama, que atesta as infrações e depois será instaurado inquérito. O Exército é fundamental em razão do quantitativo e a logística. O desmatamento é feito para vender a madeira e depois como área de pecuária. O objetivo é lucro.
Aqui na região tem muita plantação de banana. Como tem muita terra e é muito grande, nosso trabalho fica complicado. O desmatamento é proibido. Tem que ter uma acordo com o Ibama para usar uma área e preservar outra. Mas muitos desmatamentos só visam o lucro. A presença da PF é que, se por ventura houver um flagrante, fazemos o procedimento aqui mesmo e entregamos na cadeia de São Luiz do Anauá.
Militares saindo de um Pelotão Especial de Fronteira para patrulhar as estradas































































































